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O Na Ponta do Lápis de Julho, conversamos com o Will Murai, designer aprovado desde 2006, com estampas clássicas como Hannya e School Portrait.

Oi Will, fale um pouco sobre você...
Olá! Meu nome é Will Murai, nasci em 1985 na cidade de Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Quando criança já passava horas desenhando e me lembro de como ficava super feliz quando meu pai trazia montanhas de papéis pra mim.

Eu queria muito ter me formado em Artes Plásticas, mas como essa era uma idéia muito ousada pra minha vida naquela época, decidi fazer Design Gráfico. Logo que me formei, trabalhei como designer em uma agência de publicidade pequena em Mogi das Cruzes. Após 2 meses desisti porque - além do trabalho ser bem chato - eu recebi uma proposta para trabalhar como colorista de quadrinhos.
Comecei em alguns títulos pequenos e undergrounds, até que surgiu uma oportunidade de fazer alguns testes para a Marvel Comics. Para a Marvel, trabalhei em títulos como “Marvel Nemesis: The Imperfects” e “Incredible HULK”.

Depois trabalhei durante um bom tempo com a Dinamite Entertainment fazendo cores para a “Red Sonja”. Foi uma experiência muito legal, pois me ensinou muito sobre ambientação com cores, e como traduzir um roteiro escrito em linguagem visual.
Não demorou muito e logo senti a necessidade de criar minhas próprias peças e não somente colorir o trabalho de outros artistas. Comecei a trabalhar exclusivamente como ilustrador mais ou menos na época em que conheci o Camiseteria, nos seus primórdios em 2005. Mandei minha primeira estampa, chamada “Wasabi”, que recebeu muitos elogios, porém não foi produzida (por motivos óbvios. É uma mulher com sushis nos peitos!). Logo depois fiz a "Hannya" e a "School Portrait", que logo foram produzidas e reprintadas algumas vezes!

Também tenho 100% de aproveitamento com três estampas desenhadas e aprovadas em parceria com o grande amigo Guilherme Marconi; “Carmen Rocks”, “Disconnect” e a “Ninja Girl”.

Recentemente trabalhei com desenvolvimento de games dentro do estúdio da Ubisoft no Brasil. Participei de dois projetos, sendo que um deles foi liderando o time de arte na produção do jogo Michael Jackson Experience para DS e PSP. Hoje eu faço parte da premiada equipe de infografia do iG e paralelamente estou trabalhando para a Wizards of the Coast fazendo ilustrações para o Magic: The Gathering.
Antes de trabalhar com quadrinhos, você já curtia alguns?
Claro! Sempre li quadrinhos. Adoro o Homem Aranha do Terry Dodson, Spawn, BattleChasers do Joe Mad, que foi uma grande influência no meu trabalho, Hellboy do grande Mignola e a lista vai longe...
Quais seus artistas favoritos?
Vou tentar ser o mais sucinto possível e citar também alguns ilustradores: tem os renascentidas Leonardo DaVinci e Michelangelo, os impressionistas Claude Monet e Edgar Degas. Dos ilustradores do meio do século, eu adoro o trabalho do Norman Rockwell, Joseph Christian Leyendecker e Gil Elvgren. Dos contemporâneos, James Jean; os brasileiro João Ruas e Tiago Hoisel, e o fantástico Jim Murray. Poderia falar muito mais, mas acho que tá bom!
Fora o fato de ser um grande ilustrador, dizem que você é um ótimo skatista. Qual é a sua relação com o esporte?
Eu era uma criança desajeitada. Nunca me dei bem com futebol ou qualquer outro esporte. Mas com o skate foi uma coisa fantástica. Não sei dizer se eu realmente tinha alguma facilidade ou se eu estava fascinado pelo esporte! A cultura do skate é bem diferente da maioria dos outros esportes. Você pega o carrinho e sai na rua a qualquer hora pra esvaziar a cabeça das preocupações ou pode se encontrar com os amigos pra uma session.

Não existe aquela competição ou rivalidade. Você não precisa acertar mais kickflips que outra pessoa, saca? Acertar uma manobra nova dá uma satisfação enorme e muitas vezes as pessoas que estão em volta comemoram com você! Fora que há uma infinidade de manobras que cada um executa ao seu próprio estilo e personalidade. É um esporte pra ser admirado!
Como é o seu processo de criação?
O processo que eu venho desenvolvendo ao longo da minha carreira é bem organizado. Eu gosto muito da liberdade de criação, na piração e tals. Mas quando estou envolvido com projetos e comissões que têm prazos e objetivos, é sempre bom prestar atenção nos processos. Começo sempre pesquisando sobre o tema. Procuro por referências em livros, filmes, internet e coleto o máximo de estímulos visuais e conceituais que eu puder. Faço um moodboard (quadro onde se reunem todas as referências para o trabalho) e começo a desenhar sob influência dessas imagens. Depois passo pro digital e começo o processo de pintura, que não tem muito mistério: é polimento e atenção nos detalhes.
Você vem de uma família japonesa tradicional. Como a cultura oriental influenciou o seu trabalho e a sua vida?
Por ser da terceira geração de descendentes japoneses, não tive uma criação extremamente tradicional. Quer dizer, não falo japonês, nem comemos ramen todos os dias :D. Porém uma das características da cultura japonesa sempre presente na minha educação foi a disciplina. Meu pai sempre dizia “Se escolher fazer alguma coisa, faça-a bem”. Isso influenciou muito na maneira como eu encaro meu trabalho e qualquer outro compromisso, tanto profissional como pessoal.
Algumas pessoas tatuaram suas ilustrações no corpo. Como você se sente quando vê o seu trabalho na pele de alguém?
Me sinto muito honrado! Atingir as pessoas em um nível emocional também é um dos papéis de um ilustrador/artista. Acho que não existe testamento mais sincero de que você acertou nesse quesito quando uma pessoa decide perpetuar seu trabalho em sua pele.

Como foi a migração do desenho tradicional, em papel, para o computador?
Acho que a primeira experiência com computação gráfica foi com a galera de um curso de quadrinhos que eu fazia. Eles já usavam o photoshop pra colorir os desenhos arte-finalizados que eram scaneados e coloridos digitalmente no photoshop. Fiquei fascinado e logo meu pai comprou um scanner e um PC pra mim. Me familiarizei com o programa usando-o como a maioria dos coloristas americanos usavam: mouse, LassoTool e Gradient Tool dando um visual bem plástico e “liso”.
Frequentando fóruns de computação gráfica e pesquisando na internet, descobri que alguns ilustradores orientais usavam os softwares de uma maneira totalmente diferente. Eles usavam as ferramentas digitais para simular as técnicas tradicionais como aquarela e óleo. Só com a Brush tool e a tablet eles conseguiam um resultado muito mais rico e vivo com texturas e pinceladas evidentes, quase impressionista. Resolvi pesquisar mais sobre essa técnica e deu no que deu!
Você atualmente trabalha com quais equipamentos e softwares? Você pode mostrar uma foto da sua área de trabalho para matar a nossa curiosidade? ;-)

Eu só tenho usado o software Photoshop que é completo e lida muito bem com arquivos pesados. Meus equipamentos são: um Imac 27’ quadcore e alguns HDs Lacie pra armazenamento extra. Como periféricos, eu tenho uma Wacom Cintiq 21UX e uma Wacom Intuos 4 que alterno dependendo do trabalho. Também uso um Time capsule e o Dropbox pra versionamento e backup e por último, mas não menos importante, um nobreak APC 1500. A gente nunca lembra de dar atenção pra esse tipo de equipamento, mas eles definitivamente “salvam vidas”!
Fora o lado visual dos seus trabalhos, você participa de outras etapas do processo de criação. Recentemente você recebeu um prêmio internacional (Malofiej) com infográfico mostrando o "frio na barriga". Dizem que você recorreu a um fluxo de criação antigo, também utilizado pelo Norman Rockwell. Como foi o processo e como é Will Murai antes da fase de ilustração?

Participar de projetos é uma coisa que eu gosto muito. Analisar o cenário e pensar em como usar meu trabalho pra agregar valor ao produto é também uma parte do meu papel como ilustrador. Neste caso, a gente tinha uma matéria especial pro dia dos namorados que falava das reações fisiológicas que acontecem no corpo quando estamos apaixonados.
Logo imaginei que a gente deveria seguir com um produto que informasse de uma maneira mais divertida e menos científica. Usei como referência o trabalho do mestres dos mestres, Norman Rockwell, que sabia representar como ninguém emoções e situações sob uma ótica inocente e com um toque de humor. Porém, para este projeto seria necessário não só ilustrar como ele, mas pensar em como entregar essa informação ao usuário. Pra isso, foram envolvidos outros profissionais, como o Daniel Biazzotto que tomou conta da fotografia, enquanto o Cassio Bittencourt e a Heloísa Ferreira interpretavam a cena.
Depois o Raphael Ferraz trabalhou no design, o Rodrigo Guedes fez a parte de motion graphics e o Bruno Godoy programou. Teve também o grande Chico Mitre da banda Tokyo Savannah que narrou simulando um locutor de rádio da década de 60. A edicão de som foi feita pelo Master San Bass. O desafio foi tentar transferir essa sensação que as ilustrações do Rockwell nos passam em um infográfico animado e nativo da internet. Foi muito gratificante não só pelo prêmio, mas pela oportunidade que eu tive de trabalhar num projeto legal, com uma equipe empolgada e altamente capacitada!
De onde surgiu a inspiração pra estampa Hannya? ( te contar que já fui exorcizada por uma senhora no metrô quando estava usando essa camiseta XD)

Fazer uma peça que vai ilustrar uma roupa sempre é um desafio. É importante que tenha um equilíbrio entre conceito e estética e a cultura japonesa é muito rica nisso. Tudo tem um significado poético e dramático, além de ter sido maturada por séculos, graficamente falando. A Hannya é uma personagem do teatro de máscaras NOH, que representa o ciúmes. Fala de uma mulher que se deixa dominar pela raiva e acaba se tornando um demônio. O que mais me chamou a atenção nessa referência é a complexidade de emoções que leva à transformação da beleza em ódio, além da estética das máscaras japonesas serem sensacionais.
Como você conheceu o Camiseteria?
Estava conversando com amigos que me falaram sobre o site e a idéia do concurso. Quando entrei, já tinha sido impressa a primeira coleção dos designers convidados e estava rolando o concurso com um zilhão de estampas participando. O que me chamou atenção foi o carinho dos fundadores com o projeto. Eram sempre muito atenciosos com a comunidade e cuidadosos com a implementação das idéias e dos serviços. Resolvi participar e logo emplaquei alguns trabalhos!
O Camiseteria na sua vida...
Sem palavras! Fiz GRANDES amigos na comunidade, que foram “exportados” pro mundo real! Alguns deles foram de grande importância no meu desenvolvimento como artista e como profissional. Beijo especial pro Edu Duccigne, Rodrigo David, Cleber Zerrenner, Fabio Favaro, Guilherme Marconi, Pablo Lobo e pra Janara Lopes.

Obrigada pela honra de ter lhe entrevistado Will! Tudo de bom! E galera, até o próximo Na Ponta do Lápis em Agosto!
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